Animal sim, máquina de parir nunca

parcela nisso, pois deu a luz a cinco, todos vindos ao mundo assim. Minha irmã teve um casal da mesma forma. Lindo, para mim é lindo. A maneira mais clara de enxergar como a natureza existe e é perfeita.

Mas muita gente prefere ignorar o natural e partir logo para o artificial. Perdem muito por fazê-lo. Ao contrário do que dizem por aí, a cesárea não é mais fácil, é mais difícil. Para a mulher, que costuma ter um processo de recuperação mais lento e doloroso, e para o bebê, que, entre outras coisas, não entra em contato com bactérias boas para seu sistema imunológico presentes, sim, na vagina da parturiente.

Há outras tantas razões pela qual o parto normal (com ou sem anestesia) é mais indicado. Eu não vou discutir nenhuma delas. Apenas contar a minha história. Não para meu filho, pois para ele contarei pessoalmente e com mais detalhes, mas para outras futuras mamães que estão longe não só de mim, mas da melhor coisa que pode acontecer a elas. Para, talvez, encorajá-las a passar pela experiência mais incrível e que só elas podem passar. E que fique claro a todas: a mulher que tem parto normal não é melhor que a que não tem, é o parto normal que é melhor para ela, e para o filho.

Não é justo julgar quem acaba tendo que passar pela cesárea, afinal há inúmeras razões médicas para que isso aconteça, o que não diminui nenhuma mãe. Mas sei que há muitas mulheres que acabam sendo convencidas pelos médicos a se submeter à cirurgia sem precisar. Muitos, se não inventam desculpas convincentes e fora do alcance do conhecimento leigo da gestante, influenciam a paciente em um momento de fragilidade dela. Outros nem precisam, pois já encontram no medo e na falta de informação da mãe o eco para sua fala.

Animal sim, máquina de parir nunca

Falo isso porque cheguei a ter uma pequena experiência com um obstetra, escutei inúmeros relatos do que falei acima e já produzi uma reportagem sobre o tema, com direito a depoimento de médico renomado dizendo o quanto a mulher pode e deve passar pelo natural e o quanto profissionais de saúde dificultam essa “passagem”. Já falei com doulas, com psicólogas, obstetras e mães que trocaram de médico mesmo estando no fim da gestação em busca de um tratamento mais humano e respeitoso.

Quando eu engravidei, a primeira idéia que me passou em mente na hora de escolher o obstetra foi a disposição dele em realizar partos normais, pois sempre soube que a maioria se sente confortável em agendar a vinda ao mundo de quem não marcou horário para chegar. Tanto foi que mudei de médico, pois ouvi deste primeiro algo como: “Ah, quase todos os partos que faço são cesáreas, é mais fácil né Aninha?”. Já o segundo profissional que procurei eu sabia que era a favor do normal, pois tinha realizado dois só na minha família. E, no consultório dele, cheguei logo dizendo que era esse o motivo de eu estar ali. Pronto, foi o começo.

Li e reli muito, em livros, na Internet, em revistas. Fiz Yoga desde o quinto mês, caminhei e conversei muito com meu filho quando ele estava aqui dentro. Muitas pessoas me diziam para mentalizar de maneira positiva e eu mentalizava, imaginando a cena da forma como eu queria, priorizando a minha imagem bem tranquila e sem dor.

É claro que tive medo do parto. Muito. Ficava ansiosa, falava disso o tempo todo a ponto de meu marido dizer que eu não precisava me preocupar. A resposta? “É porque não é você que vai passar por isso!”. Eu tinha receio da anestesia, mais do que de qualquer outra coisa. A dor eu nem conseguia imaginar, então insistia com o médico em não ser anestesiada. Ele disse que eu tomaria a decisão, mas que não tinha razões para eu sentir dor. Esse assunto deixei para a hora do vamos que vamos, afinal há muitas coisas que não há como prever.

Me preparei para o parto normal, mas também tentei me preparar para a possibilidade de não poder ser assim. Escutei histórias de mulheres que não conseguiram e uma delas me disse que ficou muito frustrada. Por isso, eu ao menos tentava pensar que se não desse era porque não era para ser. Mas preciso admitir que eu não estava preparada para não ser.

No final da gravidez, lá pela trigésima oitava semana, sentia “lá embaixo” se abrindo enquanto eu andava, mas não sentia mais nada, nem aquelas contrações de “treininho”. Mas passei uma semana com intestino solto, sintoma de trabalho de parto para algumas mulheres. Na sexta-feira, passei a madrugada com dor de barriga. Até as 5 da manhã sofri quieta porque achava  que eram só cólicas intestinais, até que percebi a barriga ficando dura. Chamei meu marido, que queria me levar para a maternidade, já que ficava a uma hora de nossa casa. Tentei esperar para ver se era mesmo o caso e… vomitei! Aí ligamos para o médico e ele pediu que fossemos para a maternidade.

No caminho, contrações a cada cinco minutos! Uma dor que aumentava conforme meu nervoso. Respiração de Yoga. Chegamos. Me levaram para examinar e eu estava com um dedo de dilatação. Fui para o quarto, mais calma e com quase nada de dor. Médico pediu para eu continuar marcando as contrações e eu marquei, o que mostrou que elas vinham, mas não duravam o suficiente para “empurrar” meu bebê lá para baixo. Mais exames para saber se o feto estava em sofrimento e ele não estava.

Fim de tarde, contrações fracas, pouca dor nas costas e a pergunta se eu queria induzir o parto. Eu, preocupada em acabar fazendo cesárea, perguntei logo: “Ai, doutor, você tá querendo cortar minha barriga né?”. Ele, um amor de profissional e ser humano, me explicou que não, que a decisão era minha. Eu, preocupada se a minha insistência poderia causar algum dano ao neném, perguntei se isso podia de fato acontecer. O obstetra, todo paciente, sentado na maca ao meu lado, disse que ele não me daria chance de escolha se a vida do Léo estivesse em risco. E conversou comigo mais um pouco, me tranquilizando, explicando que eu podia voltar para a casa e esperar a hora. Voltei. Saí do quarto com a sensação de que eu havia falhado, ou melhor, de que eu ainda não tinha obtido o que eu queria do jeito que eu queria. Poxa, todos saindo com bebê nos braços e nós com as malas intactas e mais um cabide da mãe exageradamente preparada! Foi até engraçado…

Fiquei mais uma semana na casa da minha mãe, mais próxima do hospital, sem dor, sem nem contrações fracas, só com a vontade de ver a carinha do bebê. Diziam que eu era corajosa, outros que teriam feito logo a cesárea. Eu estava mais do que certa que era para esperar. Sexta-feira seguinte, consulta e constação de que estava com quatro para cinco centímetros de dilatação, só que ainda não havia o encaixe. Surgiu a pergunta se eu queria tentar induzir. Surgiu a resposta, depois de mais e mais perguntas, que eu queria sim. A ansiedade era imensa, o marido estava há uma semana longe e eu senti que ia ser naquele dia. Médico me deu muitas certezas de que o normal viria. Talvez se fosse hoje eu esperaria ainda mais para tudo acontecer naturalmente mesmo. Talvez eu teria mais paciência, menos ansiedade. Mas eu fui para a maternidade, como se fosse cesárea, sem dor, sem bolsa rompida.

Cheguei por voltas das três da tarde, me instalei e fui logo tomando a oxitocina para induzir. Não fez nem cócegas. Médico vem examina, volta, vem examina de novo, volta e me diz que vamos para a sala de parto, pois já tinha mais dilatação (acho que sete). Pelo meu ritmo, ainda iria demorar mais e, por isso, o obstetra disse que era melhor eu tomar anestesia. Isso faria o colo do útero relaxar e, junto com o rompimento da bolsa, faria o “preguiçoso” descer. Foi o que aconteceu. Depois da anestesia (tranquila e sem razões para meu medo), o médico rompeu a bolsa e ficou lá sentado esperando. Aí sim eu senti dores, contrações fortes. Porque a anestesia não foi em grandes doses, um pedido meu e do meu médico, que me conhecia e queria que eu sentisse as contrações e soubesse quando deveria empurrar. O anestesista até perguntou se eu precisava de mais e eu não precisei. Respirava fundo, conversava com meu pequeno via pensamento e tinha a certeza de que tudo iria dar certo.

O obstetra me pediu para fazer força para ver se já era a hora. Era. Mais alguns empurrões e, antes das 23 horas, nasceu. Sem palavras para descrever o momento em que o mundo para. O momento mais mágico, feliz e divino da vida. Minha vida. Vida do filhinho que chega. Vida! Parto normal, calmo, sem muita dor, feliz. O depois foi tão tranquilo quanto o durante. A episiotomia, que foi necessária segundo o médico, doeu nos dias seguintes, mas não precisei nem de anti-inflamatório. Tudo volta ao normal muito rápido quando se tem normal.

Animal sim, máquina de parir nunca

Tenho que dizer que conheço mulheres que tiveram cesárea e se recuperaram de maneira perfeita, que não passaram problemas e que receberam nos braços filhos lindos, saudáveis e nem um pouco “amassados”. Conheço também quem tenha tido parto natural mesmo, sem anestesia, com dores suportáveis e sem necessidade de nenhum cortinho. Cada uma tem seu corpo, sua história, suas crenças, seu marido, seu médico. Mas todas sabem que o corpo da mulher é capaz de se transformar para abrigar um novo ser humano e, por isso, todas devem acreditar que, da mesma forma, este mesmo corpo também é capaz de ir além para parir.

Parto humanizado? Nunca deixamos de ser seres humanos, mas se é preciso rotular o tratamento médico que iremos receber para sermos tratadas como merecemos, que usem essa definição. Mas prefiro dizer só parto. E preferia que só essa palavra já garantisse um nascimento segundo as capacidades e limites que a naturezanos dá, e não conforme a produção em série da maternidade. Se dar um nome específico é humanizar alguma coisa, ok. Ainda sim, prefiro pensar no conceito de natureza, ou algo assim. Porque só se a natureza não quisesse facilitar, é que a ciência deveria ajudar. Só se precisasse, cortariam nossa barriga ou vagina. Só se houvesse necessidade, seríamos anestesiadas. Só se o bebê nascesse com problemas, ele não iria direto para o colo da mãe. Só se o pai não tivesse coragem, não seria ele a cortar o cordão umbilical. Só se. Caso contrário, deixariam a natureza agir. Ela sabe o que faz. E ela não quer nada que se distancie do humano, do ser humano, mesmo que haja a intervenção dele no episódio mais animal da vida. Sim, porque somos animais. Não máquinas. Pena que esquecem disso.