Amamentar é uma batalha

Amamentar é mesmo uma batalha. E, muitas vezes, da mãe contra o mundo. Hoje é a estreia de uma nova coluna por aqui: Especialistas. E, pra começar com o pé direito, quem escreve é uma convidada especial, que entende muito dessa “guerra” travada em torno da amamentação! Ela amamentou o filho por 5 meses, o que a deixou frustrada e a fez se especializar como doula pós-parto e consultora em aleitamento materno.  Com vocês, a estreia do novo espaço do blog, onde profissionais que têm filhos abordam temas de sua especialidade – com conhecimento de causa! 

Na Semana Mundial do Aleitamento Materno não poderia deixar de escrever sobre o tema, com o qual trabalho e me apaixono diariamente. Esse ano o assunto é “Amamentação: uma vitória para a vida toda” e é exatamente assim que vejo a amamentação na nossa atualidade, como uma vitória.

Hoje em dia estamos lutando para promover o aleitamento materno de forma exclusiva até o sexto mês de vida e, após esse período, uma alimentação complementar saudável. Parece fácil, mas não é. Realmente não é. Sobre introdução alimentar saudável não irei abordar, no entanto, cabe lembrar que é tão importante quanto à amamentação.

Amamentar é uma batalha

E amamentar é fácil? Amamentar na primeira hora de vida é fácil? Amamentar exclusivamente até o sexto mês de vida do bebê é fácil? Não. Infelizmente não são todos que recebem informações adequadas para que consigam estabelecer e manter uma amamentação de sucesso. E quando o assunto é desmame temos em vista outra luta, já que tantas informações inadequadas são disseminadas pela mídia, blogs e redes sociais.

Após o bebê nascer inicia-se uma batalha: a de amamentar. Muitas vezes a mãe quer muito, mas a instituição hospitalar não ajuda. Digo instituição hospitalar porque darei um exemplo clássico (infelizmente) que é uma cesárea eletiva. No caso de partos humanizados e partos domiciliares humanizados a situação é bem diferente, já que são profissionais humanizados que também lutam pela amamentação e a enxergam com outros olhos, respeitando mãe e bebê nesses primeiros momentos.

Logo que nasce, levam o bebê para realizar todos os procedimentos que consideram ‘inadiáveis’, e então fica a mãe na sala de pós-parto sozinha e o bebê no berçário sozinho. Presenciei algumas vezes em diferentes instituições e observa-se a seguinte situação: o bebê sendo colocado no berço para aquecimento enquanto estão todos os familiares do outro lado do vidro observando, e então começam a surgir comentários como “porque ele chora tanto?” ,”deve estar frio”, “precisam colocar roupa nele logo”, “olha como é esperto” e um tempo depois “olha ele vai dormir”.

Amamentar é uma batalha

Claro que ele vai dormir, e sem mamar. E a única resposta para todas as perguntas é que: o bebê quer e precisa ficar com a mãe, pele a pele, sentir seu cheiro, sua frequência cardíaca, lamber seus mamilos e quem sabe mamar. É na primeira hora de vida que o bebê esta com os reflexos mais aguçados – o que torna a primeira mamada mais fácil, também antecipa a primeira imunização, ajuda na contração uterina (prevenindo hemorragias devido à liberação hormonal frente à sucção do bebê), e reforça o vínculo afetivo entre mãe e filho.

Infelizmente na prática do dia a dia não observamos isso. A mãe, caso tenha tido a felicidade de ser informada ou de ter buscado informação sobre o assunto, acaba implorando por deixarem seu filho mamar ainda na primeira hora de vida.

Passei dia desses por uma situação onde a profissional me disse: “Olha, estamos aguardando a acomodação e está tudo bem. Só vai atrasar a primeira mamada”. Só vai atrasar a primeira mamada. Como assim? Nessa situação, se a mãe não tivesse lutado por seus direitos e se empoderado, a primeira mamada iria ocorrer quatro horas após o nascimento. O que isso acarreta para a instituição? Nada. Afinal, também os presenciei oferecendo mamadeira caso a mãe sentisse muita dificuldade em amamentar.

E é assim que muitas instituições encaram a amamentação. Trabalho como consultora e, na maioria dos casos, atendo mães que tiveram orientações totalmente erradas que vão desde a pega do bebê até oferecer complemento porque nos primeiros dias “o leite é fraco”. E aí me deparo com mães frustradas, perdidas meio a tantas informações inadequadas e encarando um puerpério (que por si só já não é fácil).

Resultado de tudo isso: desmame precoce na maioria das vezes. Quando chego para atender, o bebê apresenta confusão de bicos (devido à mamadeira e/ou chupeta), luta com o peito e a mãe luta para conseguir amamentar. Diz que o leite diminuiu (o que acontece a curto e médio prazo quando há introdução de bicos artificiais), e então é preciso muito amor e paciência pelo binômio ().

Devemos atender aquela mãe, perdida em seus sentimentos, que instintivamente sabe que o melhor para seu pequeno mamífero é seu leite, mas recebe tanta informação de tantos lados que se perde. E é lindo de ver a mãe se reorganizando interna e externamente com a sua ajuda, readquirindo autoconfiança, e o bebê sendo o reflexo disso tudo. Isso leva tempo e comprometimento da mãe, mas é possível sim.

Amamentar é uma batalha

Quero dizer meninas que devemos nos informar, buscar ajuda de pessoas que realmente entendem do assunto, investir em uma amamentação que é o melhor para ambos, correr atrás e confiar em nossos instintos. Nos tornamos muito sensíveis e vulneráveis no período pós parto e precisamos de ajuda sim, de preferência de profissionais que entendam daquilo. É preciso que instituições hospitalares se atualizem, respeitem os direitos do recém-nascido e da mãe – e então, em pequenos passos, faremos grandes mudanças.

Gabriela Giacheta é enfermeira obstetra, doula pós-parto e consultora em aleitamento materno. Mãe do Miguel (de quase dois anos), se frustrou com o desmame precoce e largou tudo pra entender o que havia acontecido. Transformou frustração em superação: deixou os hospitais, se especializou, e optou por ajudar outras mães através do atendimento domiciliar. Na página Descobridores do Mundo, ainda compartilha dicas sobre maternidade ativa!